O que não sabemos sobre nós mesmos: autismo subdiagnosticado, suplementos que assustam e a gordura que triplicou no Brasil
Três histórias mostram lacunas entre o que a medicina sabe e o que consegue diagnosticar, entre o que consumimos e seus possíveis efeitos, e entre a saúde percebida e a realidade da obesidade no Brasil.
Três histórias, três fontes e o contexto necessário para entender o que muda — e o que ainda precisa de confirmação.
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ScienceDaily
Síndrome ligada ao autismo pode ser muito mais comum do que se estimava
Uma análise genética estimou que a síndrome de Phelan-McDermid pode afetar cerca de uma em cada 7.300 pessoas, enquanto muitos casos permanecem sem diagnóstico por falta de testes específicos.
Uma análise publicada na revista Autism Research e divulgada pelo ScienceDaily estimou que a síndrome de Phelan-McDermid pode afetar aproximadamente uma em cada 7.300 pessoas, proporção que equivaleria a mais de 45 mil pessoas nos Estados Unidos. A condição envolve alterações no gene SHANK3, no cromossomo 22, e pode incluir atraso do desenvolvimento, deficiência intelectual e características que se sobrepõem ao espectro autista. Os pesquisadores reuniram dados de quase 180 mil pessoas com autismo provenientes de dez fontes e estimaram casos que podem não ter sido identificados. O resultado é uma estimativa populacional, não um censo diagnóstico direto: a frequência observada em bancos de dados genéticos pode não representar todas as populações, e variantes diferentes podem produzir manifestações distintas. A descoberta reforça a importância de discutir investigação genética individualizada com especialistas, mas não significa que todo autismo tenha uma causa genética identificável nem que já exista tratamento aprovado específico. Terapias dirigidas ao SHANK3 ainda estão em pesquisa e ensaios clínicos.
Glicosamina é associada a progressão mais rápida de alterações cognitivas
Uma análise de prontuários encontrou associação entre o uso do suplemento e maior probabilidade de progressão do comprometimento cognitivo leve para demência, mas ainda não prova causa e efeito.
Pesquisadores da Universidade da Flórida analisaram registros de saúde e observaram que pessoas com comprometimento cognitivo leve que usavam glicosamina tinham probabilidade 25% maior de evoluir para demência. Experimentos com tecido cerebral humano e camundongos também apontaram alterações em um processo metabólico de marcação de proteínas por estruturas de açúcar, chamado O-GlcNAcilação, que pode estar mais ativo no cérebro afetado pelo Alzheimer. O achado é relevante porque a glicosamina é um suplemento vendido sem receita e usado para dores articulares, mas a pesquisa é principalmente observacional: pessoas que tomam o suplemento podem diferir em outros aspectos de quem não toma. Os próprios autores ressaltam que a associação não demonstra que a glicosamina cause progressão da demência. Os experimentos laboratoriais sugerem um mecanismo possível, não uma conclusão sobre o risco individual. Não se deve interromper tratamento por conta própria; a decisão sobre continuar ou não o suplemento deve ser discutida com médico ou farmacêutico, especialmente em pessoas com comprometimento cognitivo.
Obesidade mais que triplicou entre adultos brasileiros em três décadas
Dados da série Carga Global de Doenças indicam que a prevalência de obesidade entre brasileiros com 25 anos ou mais passou de 7,8% em 1990 para 27,7% em 2023.
Segundo a Agência Brasil, um estudo publicado na revista The Lancet mostrou que a prevalência de obesidade entre brasileiros com 25 anos ou mais passou de 7,8% em 1990 para 27,7% em 2023. O Brasil apresentou o maior crescimento entre os 17 países latino-americanos analisados. Quando se somam sobrepeso e obesidade, a proporção de adultos acima do peso normal subiu de 40,3% para 66,8% no mesmo período. A reportagem relaciona a tendência a mudanças na alimentação, maior consumo de ultraprocessados e aumento do sedentarismo, além de fatores econômicos e ambientais. Esses dados descrevem tendências populacionais e não determinam a situação de cada indivíduo. A obesidade é uma condição de saúde multifatorial, não uma falha moral, e prevenção e tratamento devem considerar acompanhamento profissional, acesso a alimentos adequados, atividade física possível e políticas públicas. Como parte dos dados depende de inquéritos populacionais e autorrelato, as estimativas também têm limitações.